“Professora, prá que a gente aprende matemática?”. Intentando responder de forma mais satisfatória e confortadora, digo que é para compreender as informações quantificáveis que vivenciamos cotidianamente, como nas situações de pesos, medidas, gastos, aquisições, perdas, ganhos e outras. Quando não satisfeitos, surgem outros questionamentos, como: “Onde vou usar isso?”; “Prá que saber raiz quadrada?”; “Prá que Pitágoras inventou isso?”. Confesso que por vezes, diante de determinados questionamentos, fiquei surpresa, como foi o caso da argumentação: “Prá que aprender logaritmo no ensino médio se eu nem vou estudar a área de exatas? Isso deveria ser visto só na faculdade e prá quem quer saber mais profundamente da matemática.”. No entanto, não por minha formação e dedicação ao trabalho – Licenciatura Plena e Especialização em Matemática, Mestrado e Doutorado em Ciências da Educação -, mas por compreender que a própria disciplina gera dúvidas e incertezas – no entanto é exata, que busco direcionar os conteúdos matemáticos (quando possível) à vida do aluno, fazendo-o perceber o quanto a Matemática se faz presente em seu contexto.
Na leitura do artigo “Prá que serve a Matemática” encontrei algumas aplicações que bem demonstram a aplicação de polinômios no nosso cotidiano que antes eu não tinha conhecimento; levarei o artigo para ser discutido em sala de aula, para junto com os alunos praticar algumas idéias do artigo, como balancear dietas utilizando polinômios. Por fim, concordo com o artigo na afirmação de que estudar matemática permite: "Entender e aplicar com inteligência os princípios da natureza quando uma curva, um movimento, uma forma, justificam matematicamente ser o que é. Assim, cabe aos estudiosos das exatas buscarem na espiral do náutilus, nos hexágonos do tatu, no pentágono do mamão, no quadrado do abacaxi, no remoinho da água, no risco do meteoro, no desenho do ovo aquilo que a natureza mais protege: sua intimidade".
Ainda na visita ao Portal Prandiano (2005) deparei-me com a feliz afirmação do professor, o físico Aguinaldo Ricieri, de que a matemática “revela a capacidade de se pensar de maneira lógica”. Noutra afirmação o físico diz que “Um bom professor precisa reunir três elementos: prazer pelo que faz, conhecimentos de sua área e condições técnicas de trabalho.”. Concordo com o professor! No entanto, nesse momento questionei o que de fato são condições técnicas de trabalho. A resposta veio do Professor de Ergonomia da UFSCAR, Dr. Neri dos Santos. Segundo Neri, são condições técnicas de trabalho: Dimensionamento de espaços e planos de trabalho; Dimensionamento de assentos e cadeiras; Dispositivos manuais de trabalho; Dispositivos mecanizados de trabalho; Dispositivos eletrônicos de trabalho; Dispositivos de controle e comando de máquinas. O referido professor expõe bem tais condições, no entanto, são condições referentes à saúde e ao conforto do trabalhador. Daí questiono se eu, como educadora – não deixo de ser trabalhadora – também preciso considerar os objetivos da ergonomia no meu ambiente de trabalho. Nesse caso Neri explica que são condições que garantem a eficácia do trabalho.
Voltando à sala de aula, à Matemática… Imaginando que existam todas as condições técnicas de trabalho, o que posso fazer para melhorar a qualidade da construção do conhecimento matemático de meus alunos? Leio novamente Ricieri (2000) que analisa: “a Matemática pode tantas outras coisas, tantas quantas podemos descobrir, como a aplicação de seus conceitos em nosso cotidiano”. O que muitas vezes observo é que algumas aulas são improdutivas, pois determinados conteúdos não despertam interesse no aluno. Por isso, segundo Ricieri (2000), quando se ensina devemos observar o histórico do assunto, sua aplicação no dia-a-dia, além da interligação entre o que se ensina e as outras áreas do saber, buscando sua função prática e na relação com tudo o que conhecemos.
Conforme argumenta Ricieri (2000), o professor poderia ser mais claro: "Decifrar junto aos alunos documentos antigos, preservados nos museus, livra-nos de inúmeros equívocos, como é o caso da operação de radiciação. Ninguém pensa, um segundo que seja, no significado de três ser a raiz quadrada de nove. Em português, literalmente, raiz quadrada dá a entender uma árvore que tem a sua raiz em formato de quadrado. Pesquisando os originais em latim do século 15, encontramos a resposta para esse despropósito: radix quadratum 9 aequalis 3. Isto é, o lado (radix) do quadrado (quadratum) de área 9 é igual (aequalis) a 3. Entende-se melhor radix como lado. E logaritmo, matriz, integral, inequação, não teriam também uma explicação que se entenda?".
Apesar da minha experiência, de meus contínuos estudos, sinto que cotidianamente a matemática é vista de modo diferente, às vezes com mais facilidade, às vezes como um “bicho de sete cabeças” ou até mesmo como algo impossível de ser aprendido – e pior, desnecessário.
Na opinião de Ricieri (2000) o temor vivenciado pelo aluno acontece devido à finalidade do ensino: avaliação. Segundo o professor “Não adianta ensinar Matemática, ou seja, lá o que for, dando exercícios e mais exercícios para que o aluno vá bem nas provas da escola”.
O professor afirma que ensinar matemática é articular a aprendizagem, é decodificar a natureza. E respalda sua afirmação concluindo que pentágonos, hexágonos, dentre outras figuras geométricas, são elementos formadores do universo que nos envolve, constituem a matéria-prima que pode ser transformada, com saliva, suor e pó de giz assoprado, em produtos e idéias. Isso, pois, objetos como camisas, sapatos, pipoca, jóias, absorventes, iogurtes, remédios, elementos do nosso cotidiano que, para serem finalizados (método), carecem de funções, logaritmos, matrizes, enfim, daquilo que as Exatas oferecem.
Conforme analisa Ricieri (2000): "A Matemática está no corte transversal de uma carambola, na forma da estrela-do-mar, nos produtos industrializados, nos escritórios de consultorias, nas fábricas, nos museus, nos papiros egípcios, nas pedras maias, nos centros de pesquisa, nas universidades, na espiral dos náutilos, no cacho de uva, no vôo de um pássaro, em nosso cérebro… e isso faz os alunos tomarem gosto pelas Exatas". Assim, pondero que planejar aulas motivadoras não significa somente uma aula no Laboratório de Informática, ou utilização de jogos e recursos lúdicos das mais variadas formas, mas sim, uma aula produtiva a partir da real interligação do conteúdo matemático com o cotidiano DO ALUNO. E posso fazer isso os levando a praticarem determinados conteúdos onde são aplicados, como: bancos, empresas (todas!), secretaria da escola, ônibus.
Posso transformar ambientes extra-sala de aula em escola e vice versa. Até por que, se a função da escola é preparar o aluno para viver criticamente em sociedade praticando sua aprendizagem, por que então não fazê-lo aprender na sociedade onde atua? Assim, eu estaria aproximando aluno e matemática em situações cotidianas onde os conteúdos matemáticos se aplicam. E conforme destaca Ricieri (2000), a prática da matemática faz o homem economizar, pois encurta o caminho do indivíduo quando este se pauta em teorias já experimentadas e certas. Assim, concluo que aprender matemática não é uma simples necessidade, mas, sobretudo uma experiência inesquecível, principalmente quando apreendida em situações as quais sou agente da própria aprendizagem. E para o aluno entender isso, preciso colocá-lo nessas situações.
REFERÊNCIAS
Portal Prandiano. Para que serve a Matemática? Prandiano: Matemática aplicada à vida. S/d. Disponível em: <http://www.prandiano.com.br/html/fr_paraque.htm>. Acesso em: 10 jan. 2012.
RICIERI, Aguinaldo. O Matemático das empresas. Por Fabiana Ribeiro e Léa Cristina. Jornal O Globo, 19 de junho de 2005. Prandiano: Matemática aplicada à vida. Disponível em: <http://www.prandiano.com.br/html/fr_impren.htm>. Acesso em 10 jan. 2012.
______. Todos podem entender e gostar de matemática. Jornal da Tarde. 04/06/2000. Disponível em: <http://www.prandiano.com.br/html/fr_impren.htm>. Acesso em: 10 jan. 2012.
SANTOS, Neri dos. Condições Técnicas de Trabalho. Aula 5. Ergonomia. UFSCAR. Disponível em: <http://www.eps.ufsc.br/ergon/disciplinas/EPS5225/aula5.htm>. Acesso em: 10 jan. 2012.